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Quando o dermatologista te encaminha para o angiologista — e por que isso não é “jogar o problema para frente”

Tem uma situação que confunde bastante gente: vai ao dermatologista por causa de uma mancha na perna, um vasinho incômodo ou uma coceira que não passa, e sai do consultório com um encaminhamento para outro especialista, o angiologista. A reação mais comum é achar que o dermatologista “não resolveu” ou “empurrou” o caso adiante. Na maior parte das vezes é o contrário: é exatamente isso que se espera de um bom diagnóstico dermatológico — reconhecer quando o que está na pele é, na verdade, sintoma de um problema que mora mais fundo, no sistema vascular.

Pele e circulação são mais conectadas do que parecem

A pele das pernas é, com frequência, a primeira parte do corpo a mostrar sinais visíveis de que a circulação venosa não está funcionando bem. Isso acontece porque o sangue que não retorna adequadamente ao coração fica represado nas veias das pernas, aumenta a pressão local e, com o tempo, provoca alterações que aparecem literalmente na superfície da pele — antes mesmo de a pessoa sentir dor significativa.

Esse quadro tem nome técnico: insuficiência venosa crônica (IVC). E não é raridade. Estudos epidemiológicos indicam que entre 5% e 15% dos adultos entre 30 e 70 anos são acometidos pela doença na Europa, e nos Estados Unidos cerca de 7 milhões de pessoas convivem com o quadro. No Brasil, um estudo de referência conduzido em Botucatu (SP) estimou prevalência de varizes em 35,5% da população adulta, com formas mais graves — úlcera aberta ou cicatriz de úlcera anterior — presentes em cerca de 1,5% dos casos. A insuficiência venosa crônica é responsável por 70% a 90% de todas as úlceras que aparecem nos membros inferiores.

A classificação que orienta o encaminhamento

Existe uma ferramenta clínica usada tanto por dermatologistas quanto por angiologistas para padronizar a gravidade da doença venosa: a classificação CEAP (clínica, etiológica, anatômica e fisiopatológica). Ela vai de C0 a C6, e é justamente essa escala que costuma orientar, na prática, o momento certo do encaminhamento:

  • C0-C1: ausência de sinais visíveis ou presença apenas de telangiectasias (os “vasinhos”) e veias reticulares.
  • C2: veias varicosas visíveis, com diâmetro igual ou maior que 3 mm.
  • C3: presença de edema (inchaço) associado.
  • C4: já existem alterações de pele decorrentes do dano vascular crônico — hiperpigmentação, eczema (a chamada dermatite ocre) e lipodermatoesclerose (endurecimento da pele e do tecido subcutâneo).
  • C5: úlcera venosa já cicatrizada.
  • C6: úlcera venosa ativa, aberta.

O dermatologista frequentemente é quem primeiro identifica os sinais de classe C4 em diante — porque são, literalmente, manifestações de pele — e é esse achado que costuma disparar o encaminhamento ao angiologista, já que a partir desse estágio o tratamento eficaz depende de investigar e corrigir a causa vascular, não apenas cuidar da pele afetada.

O que exatamente o dermatologista está vendo quando encaminha

Dermatite ocre (eczema de estase): placas avermelhadas, descamativas, com coloração amarronzada característica (por depósito de hemossiderina, um subproduto da degradação de hemácias que extravasam dos capilares), tipicamente na região do tornozelo. É considerada manifestação tardia da doença venosa crônica, correspondendo ao estágio C4 da CEAP — e é um dos sinais mais claros de que a causa não está na pele isoladamente.

Lipodermatoesclerose: endurecimento progressivo da pele e do tecido subcutâneo da perna, resultado de um processo inflamatório crônico causado pela hipertensão venosa mantida. A pele fica com aspecto de “couro” e a perna pode assumir um formato característico, mais estreito na parte inferior — descrito às vezes como “garrafa de champanhe invertida”.

Atrofia branca: pequenas áreas esbranquiçadas na pele, geralmente próximas ao tornozelo, que indicam dano microcirculatório localizado e são consideradas sinal de maior gravidade dentro do espectro da doença venosa.

Úlceras que não cicatrizam: feridas nos membros inferiores que persistem por semanas sem sinal de melhora costumam ter causa vascular na maioria esmagadora dos casos. Tratar apenas a ferida, sem investigar e corrigir a hipertensão venosa subjacente, tende a resultar em recidiva constante — por isso a avaliação com Doppler vascular, exame que só o angiologista solicita e interpreta dentro desse contexto clínico, é indispensável antes de qualquer tratamento definitivo.

Telangiectasias associadas a sintomas: vasinhos isolados, sem sintoma, muitas vezes são tratados dentro do próprio consultório dermatológico ou de forma compartilhada. Mas quando vêm acompanhados de dor, sensação de peso, edema recorrente ou piora progressiva ao longo do dia, esses sintomas indicam que pode haver refluxo venoso mais significativo por trás dos vasinhos visíveis — o que exige investigação com exame de imagem, território do angiologista.

Por que não faz sentido o dermatologista “resolver tudo sozinho”

Existe uma lógica clínica simples por trás desse tipo de encaminhamento: o dermatologista é o especialista em diagnosticar o que está acontecendo na pele e reconhecer o padrão que sugere causa vascular. O angiologista é quem tem a ferramenta diagnóstica certa para confirmar a extensão do problema — o ecodoppler venoso, que mapeia o fluxo sanguíneo e identifica exatamente onde está o refluxo — e o arsenal terapêutico específico para tratar a causa: desde meias de compressão graduada e mudanças de hábito, até escleroterapia, ablação por laser ou radiofrequência, e cirurgia quando necessário.

Tratar apenas a manifestação cutânea de uma insuficiência venosa em estágio C4 ou C6 sem corrigir o problema vascular de base tende a trazer alívio temporário e recidiva praticamente garantida. É por isso que o encaminhamento, nesses casos, não representa limitação do cuidado dermatológico — representa exatamente o oposto: reconhecimento de que aquele quadro específico exige duas frentes de tratamento trabalhando junto.

Quando o cuidado é, de fato, compartilhado

Vale registrar que nem todo encaminhamento significa “problema grave”. Em casos mais leves — vasinhos isolados por preocupação estética, por exemplo — é comum que dermatologista e angiologista atuem de forma intercambiável, cada um dentro de sua própria prática, sem que um dependa necessariamente do outro. A diferença está no que o exame clínico revela: quando aparecem sinais de estágio mais avançado na classificação CEAP, sintomas associados, ou úlceras que não cicatrizam, a investigação vascular deixa de ser opcional e passa a ser parte necessária do diagnóstico correto.

Perguntas frequentes

Toda mancha marrom na perna significa problema vascular grave? Não necessariamente, mas manchas hiperpigmentadas persistentes na região do tornozelo, especialmente se acompanhadas de edema ou histórico de varizes, são um sinal clássico o suficiente para justificar avaliação vascular.

Preciso fazer algum exame antes de ir ao angiologista? Geralmente não. O próprio angiologista solicita o Doppler venoso (ecodoppler) durante a consulta inicial, conforme a necessidade identificada no exame clínico.

Vasinhos sempre precisam de avaliação vascular completa? Não. Vasinhos isolados, sem sintomas associados, costumam ser tratados esteticamente sem necessidade de investigação aprofundada. A avaliação com Doppler se torna importante quando há sintomas, veias mais calibrosas envolvidas, ou sinais de alteração de pele.

Uma ferida na perna que não cicatriza pode ter causa vascular mesmo sem varizes visíveis? Sim. Parte da insuficiência venosa crônica ocorre no sistema venoso profundo, não visível a olho nu, e ainda assim pode causar hipertensão venosa suficiente para impedir a cicatrização de feridas.

O tratamento da causa vascular substitui o cuidado dermatológico da pele afetada? Não. O ideal é que os dois cuidados avancem juntos: o angiologista corrige a causa (refluxo, hipertensão venosa), enquanto o dermatologista trata a manifestação cutânea (eczema, ressecamento, infecção secundária), otimizando a cicatrização e o conforto do paciente durante o processo.


Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individualizada. Referências: Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular (SBACV), Diretrizes sobre Insuficiência Venosa Crônica; estudo epidemiológico de Maffei et al., Botucatu-SP; classificação CEAP para doença venosa crônica; literatura de revisão sobre dermatite ocre e alterações tróficas da pele associadas à IVC.

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