Escolher dermatologista costuma ser tratado como escolher qualquer outro prestador de serviço: pesquisa no Instagram, olha antes-e-depois, compara preço. O problema é que pele não é decoração de ambiente. Um procedimento malfeito não se resolve trocando de fornecedor — às vezes deixa marca permanente, e em casos mais graves, compromete órgãos inteiros. Os dados recentes sobre complicações estéticas no Brasil mostram que esse risco não é hipotético nem raro.
Segundo o Guia da Medicina Segura, publicado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), foram registrados 9.566 casos de exercício ilegal da medicina no país entre 2012 e 2023 — e cerca de 61% desses casos estão ligados a procedimentos estéticos. Do total identificado, 42% envolvem pessoas sem qualquer formação em saúde, e 33% são profissionais de outras áreas (biomédicos, dentistas, enfermeiros, esteticistas, farmacêuticos) atuando fora do escopo permitido.
Um estudo brasileiro publicado na revista Dermatologic Surgery, ouvindo dermatologistas de diferentes regiões do país, encontrou que 17% das complicações tratadas por médicos após procedimentos estéticos resultam em sequelas permanentes. Quase 90% dos profissionais entrevistados relataram atender até 15 pacientes por mês com complicações decorrentes de procedimentos realizados por não médicos, com uma média geral de cinco casos mensais por profissional entrevistado.
Casos graves existem e estão documentados: um dossiê conjunto da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), divulgado em 2024, reuniu imagens de 87 pacientes com complicações decorrentes de procedimentos feitos por não médicos — incluindo o óbito de um paciente de 27 anos após aplicação de peeling de fenol numa clínica estética. Outro exemplo citado por dermatologistas envolve o uso indevido de PMMA (polimetilmetacrilato) em volumes muito acima do indicado clinicamente, causando granulomas extensos, elevação de cálcio no sangue e, em casos extremos, insuficiência renal que impede até o próprio paciente de entrar em fila de transplante.
Esses dados não servem para gerar pânico — servem para explicar por que a escolha do profissional pesa mais nesse campo do que em quase qualquer outro serviço de saúde.
1. Registro no CRM e RQE de dermatologia
Todo médico precisa ter registro ativo no Conselho Regional de Medicina (CRM) do estado onde atua. Mas isso, sozinho, não comprova especialidade. O documento que garante formação específica em dermatologia é o RQE (Registro de Qualificação de Especialista), que deve constar em anúncios profissionais, prescrições e documentos oficiais do médico. Sem RQE correspondente, o uso do título de “especialista” configura infração ética, sujeita a punição pelo conselho.
A consulta é gratuita e pode ser feita diretamente nos portais do CFM e dos CRMs estaduais — qualquer serviço que cobre para fornecer essa informação deve ser evitado, já que os dados oficiais são públicos e sem custo. Uma Alternativa é consultar com um Advogado de confiança, no Portal Oficial https://www.advogabrasil.com.br/.
2. Histórico de processos ético-profissionais
Aqui vale um esclarecimento importante, porque gera confusão: os portais públicos de consulta ao CRM normalmente não exibem processos éticos em andamento, apenas casos com decisão definitiva (trânsito em julgado) que resultaram em penalidade pública. Ou seja, a ausência de registro visível não significa ausência total de histórico — significa que não há, até o momento, punição definitiva tornada pública. Para uma investigação mais aprofundada, é possível protocolar solicitação formal junto ao CRM do estado, que pode fornecer informações sobre processos já concluídos.
3. Se o procedimento é mesmo indicado por um médico
Este é o ponto mais decisivo, segundo as próprias entidades médicas: procedimentos dermatológicos invasivos — preenchimento, toxina botulínica, peelings químicos, laser, aplicação de bioestimuladores — exigem formação médica para execução segura, conforme entendimento formal do CFM (Parecer CFM nº 35/2016 e Resolução CFM nº 2.416/2024). Isso significa que, mesmo quando o profissional tem formação de saúde (biomédico, dentista, enfermeiro, farmacêutico, fisioterapeuta), a legislação brasileira reserva a indicação e execução de procedimentos cosmiátricos invasivos à medicina — especificamente às especialidades de dermatologia, cirurgia plástica e cirurgia buco-maxilo-facial.
Vale desconfiar de qualquer clínica que não deixe claro, de forma explícita, se quem vai executar o procedimento é médico. Pedir para ver a carteira do CRM ou confirmar o nome completo do responsável técnico antes de fechar o agendamento não é exagero — é prática recomendada pelas próprias entidades médicas.
Alguns padrões aparecem com frequência nos relatos de complicações analisados por dermatologistas e cirurgiões plásticos:
Nenhum desses sinais isolados é prova definitiva de risco, mas a combinação de vários deles deveria, no mínimo, adiar a decisão até uma segunda avaliação.
Verificar CRM e RQE elimina o risco mais grave — o de cair nas mãos de alguém sem formação médica —, mas não esgota a avaliação. Vale observar também:
Como sei se um dermatologista tem processo ético contra ele? Os portais públicos do CFM e dos CRMs mostram apenas processos já concluídos com penalidade pública definitiva. Para informações sobre processos em andamento, é necessário protocolar solicitação formal diretamente no CRM do estado.
Biomédico ou dentista pode aplicar toxina botulínica ou preenchimento? Segundo entendimento do CFM, procedimentos dermatológicos e cosmiátricos invasivos exigem formação médica para execução segura, e a indicação e execução ficam reservadas a médicos, principalmente dermatologistas e cirurgiões plásticos. Ainda que alguns conselhos de outras categorias tenham ampliado o escopo de atuação de seus profissionais, entidades médicas continuam questionando essa prática por razões de segurança do paciente.
RQE e CRM são a mesma coisa? Não. O CRM é o registro básico que autoriza o exercício da medicina em geral. O RQE é o registro adicional que comprova formação específica em uma especialidade, como dermatologia.
Consultar o CRM de um médico tem algum custo? Não. A consulta é gratuita em todos os canais oficiais dos CRMs estaduais e do CFM.
Vale a pena escolher pelo preço mais baixo? Não é recomendável escolher exclusivamente pelo custo. Pesquisas mostram associação entre menor custo, ausência de formação médica adequada e maior taxa de complicações — inclusive graves e permanentes.
Este artigo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individualizada. Referências: Conselho Federal de Medicina, Guia da Medicina Segura (2012–2023); Dermatologic Surgery, estudo sobre complicações estéticas no Brasil (2025); Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, Dossiê de complicações de procedimentos realizados por não médicos (2024); CFM, Parecer nº 35/2016 e Resolução nº 2.416/2024; Resolução CFM nº 1.621/2001.